Capitulo I: Memórias do outro mundo
- Eunizia Matine
- 7 de nov.
- 3 min de leitura

Vilma abriu os olhos e ficou com o coração apertado. O ar estava frio demais, o silêncio pesado demais, e aquele som… parecia dentro da cabeça dela, como se viesse de um lugar que não existia.
- Huuum… onde é que eu estou? (murmurou, com a voz rouca, quase sussurrando para si mesma.)
O corpo doía. Cada movimento era lento, estranho, como se estivesse a caminhar dentro de água. Quando olhou à volta, viu luzes vermelhas piscando e uma figura luminosa a flutuar no ar.
- Bom dia, Vilma. ( A voz era metálica, calma, mas cheia de… consciência.)
- Quem é você? ( perguntou, apertando os punhos, sentindo o medo crescer.)
- Eu sou AURA, inteligência artificial da estação. E… você não devia estar acordada.
Vilma piscou.
- Não devia… acordada?
- A suspensão que você entrou foi interrompida de forma inesperada. Protocolos da Missão Memória falharam. Você está sozinha.
Sozinha. A palavra soou na cabeça dela como um estrondo. Olhou para os corredores vazios, os monitores a piscar números e códigos que não fazia sentido. Tudo estranho, mas, ao mesmo tempo, havia uma sensação: ela já tinha estado aqui antes.
Antes que pudesse pensar, o chão tremeu. Uma luz azul atravessou a parede da estação e envolveu Vilma. O coração disparou. Ela sentiu sua mente fragmentar, e imagens surgiram: aldeias com rios que não existiam, rostos desconhecidos, vozes que a chamavam pelo nome - mas não eram dela.
- Hmmmm… o que é isto? (sussurrou, assustada.)
A holografia de AURA piscou rápido.
- Você está a ser contactada. Não posso explicar totalmente. Mas não é acidente. A consciência que você sente… escolheu você.
Vilma engoliu em seco.
- Escolheu… eu?
A voz respondeu, agora dentro da mente dela:
- “Vilma… você não está acordada. Você não está viva. Mas a morte não existe aqui. Você é a chave. Mas a chave ainda não sabe de si mesma.”
Ela caiu de joelhos. O chão da estação parecia tremer com cada pensamento dela. E quando pensou em gritar, viu algo que a deixou gelada: nos monitores, imagens dela, mas de outra Vilma, a viver coisas que nunca viveu, em lugares que nunca conheceu.
Foi nesse instante que percebeu: a realidade que ela conhecia não era mais dela. Ela nunca esteve sozinha. E o que viesse a seguir… nunca seria como ela esperava.
Vilma respirou fundo, sentindo cada fibra do seu corpo vibrar com a estranha energia que a envolvia.
A estação parecia viva. Cada luz piscando, cada alarme silencioso, cada painel refletindo dados incompreensíveis. Tudo parecia conspirar para um único propósito. Ela avançou para o corredor central, ao som dos passos, mas não estava sozinha. Algo estava lá, invisível, aguardando.
De repente, os monitores explodiram em sinais confusos. Uma mensagem apareceu, simples, direta, em letras que não pertenciam a nenhum alfabeto conhecido:
- “Vilma… Você nunca esteve aqui. Mas está prestes a descobrir a verdade.”
A voz que a chamava dentro da cabeça voltou, agora mais intensa, quase sussurrando em cada pensamento:
- “Não olhes para trás. Não há volta. Mas observa, Vilma… observa bem.”
A estação inteira tremeu de repente, luzes piscando, painéis de controle piscando mensagens incompreensíveis. Um som profundo, metálico, como se algo respirasse, ecoou pelos corredores vazios.
Vilma congelou. O impacto de tudo aquilo não era só físico, era algo que atravessava a própria mente, insinuando que não apenas a estação estava viva, mas que ela também não era mais a mesma Vilma que entrou ali.
E então, a última visão surgiu nos monitores: uma figura flutuando no espaço escuro, olhando diretamente para ela: uma outra Vilma, ou algo que dizia ser ela, mas que claramente não era humana. A consciência dentro de sua cabeça sussurrou apenas uma coisa:
- “Vilma… escolha rápido. Ou tudo acabará antes mesmo de começar.”
E naquele instante, a luz azul envolveu toda a estação.Tudo ficou em silêncio. E, no vazio absoluto, Vilma percebeu que não havia para onde fugir. O que estava prestes a acontecer… ninguém poderia prever.
... Continua









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