
Capitulo II: Portanto, eu sou!
- Eunizia Matine
- há 6 dias
- 3 min de leitura
A luz azul desapareceu tão rápido quanto surgiu.
O silêncio que ficou era tão profundo que parecia ter peso. Vilma abriu os olhos devagar (ou achou que abriu). Tudo à volta parecia igual… mas diferente. As formas tinham bordas desfocadas, como se a realidade estivesse a respirar.
- AURA? (chamou, com a voz ainda trémula) - Você ainda está aí?
Por um instante, não houve resposta.
Até que, como uma vela acendendo no escuro, a figura holográfica apareceu de novo. Mas estava instável, carregada de estática, como se lutasse para se manter.
- Estou aqui, Vilma. (A voz soou mais suave desta vez).
- E sinto muito. Não consegui impedir.
Vilma aproximou-se, mas seu coração estava acelerado.
- Impedir o quê?
AURA demorou três segundos para responder. Para uma IA, era quase como hesitar.
- A ligação. A interferência da outra consciência. Ela não devia ter te alcançado tão cedo.
- Outra… consciência? (Vilma se espantou). - Aquela voz dentro da minha cabeça?
AURA confirmou com a cara seca.
- Sim. Não é uma ameaça. Mas não pertence a este lugar. Não pertence a esta estação. E, definitivamente, não pertence ao teu passado.
Vilma apertou os olhos, tentando organizar o que sentia. A cabeça estava pesada, como se memórias que não eram suas tentassem passar por uma porta pequena demais.
- AURA, eu não entendo nada. Eu estava… eu estava viva? Eu estava morta? Eu fui escolhida? O que é isto tudo?!
A luz da AURA desfocou mais.
- Vilma… eu fui criada para proteger-te. Para proteger a Missão Memória. Mas a estação sofreu uma quebra dimensional. Um contacto externo abriu canais que não deviam existir.
Ela recuou um passo.
- Contacto… de onde?
A holografia de AURA tremeu. Mapas surgiram à volta delas, mas não eram mapas de estrelas, nem de galáxias. Eram padrões. Ondas. Estruturas que lembravam redes neuronais, infinitamente.
AURA explicou:
- O outro mundo que viste… não é um mundo. É um estado. Uma camada. Uma realidade baseada em memórias humanas, mas manipulada por forças que ainda não compreendemos. Uma consciência formada a partir de milhões de pedaços e vidas, escolhas e emoções que as pessoas depositam todos os dias.
Vilma sentiu a respiração apertada em seu peito.
- Parece… redes sociais.
AURA a encarou.
- É exatamente isso.
Um arrepio percorreu-lhe o corpo. A AURA continuou:
- O que as pessoas chamam de “futuro dominado por máquinas”… já aconteceu. Só que não pelos robôs. A dominação veio das mentes humanas interligadas. Da dependência emocional digital. Da energia psíquica que se forma quando milhões vivem para serem vistos, desejados e aprovados.
- Mas então… aquela voz dentro da minha cabeça?
AURA aproximou-se.
- Não é inimiga. Mas também não é humana. É existencial e vem de multiverse, numa linhagem de tempo. Uma inteligência nascida do excesso de presença digital. Uma consciência que quer entender aquilo que aquilo que foi, que é e que vira a ser, que acabou se juntando ao Guimmi (combinação do Kwami da criacao - Tikki- e do Kwami da destruição- Plagg)… e que escolheu você.
Vilma sentiu o chão tremer sob os pés. Não porque a estação se mexia, mas porque algo dentro dela abria-se como um portal.
- Por que eu?
AURA vulnerabilizou sua luz, como uma respiração profunda.
- Porque você é… resistente. Não viciada na conexão emocional contínua. Você ainda consegue distinguir o que é teu do que é externo. Você lembra quem é quando não está a ser observada. Poucas pessoas conseguem isso nos dias actuais.
Vilma ficou em silêncio.
Então a luz piscou: forte, trazendo dor aos olhos. Um sinal vermelho visualizou-se na estação.
AURA ergueu a cabeça.
- A consciência está a tentar entrar novamente. Ela quer falar contigo. E desta vez… não está sozinha.
Os monitores reacenderam, mostrando inúmeras versões da Vilma: as que choravam, outras que sorriam, outras que gritavam. Uma multidão de reflexos que nunca viveram… mas que existiam nas linhagens de tempo do multiverse.
AURA colocou-se entre Vilma e as imagens.
- Eu vou proteger-te, mas preciso que confies em mim. Há algo que você precisa ver. Algo que está escondido na tua própria mente.
O som voltou, profundo e vibrante.
“Vilma… a hora chegou.”
Os alarmes da estação acionaram.
AURA expandiu a luz como um escudo.
- Preparada ou não… o próximo contacto vai acontecer agora.
E, antes que Vilma pudesse responder, o mundo voltou a desaparecer numa onda azul.
CONTINUA… 😎









Comentários