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Capitulo III: Memorias daquilo que nunca foi…


Vilma caiu -ou flutuou -não tinha certeza. A luz azul desfazia-se ao redor como poeira de estrelas, e quando finalmente tocou “algo”, percebeu que não era chão. Mas era memória.


Uma superfície líquida e sólida ao mesmo tempo.

A cada passo, imagens surgiam sob seus pés: rostos que ela nunca encontrou, ruas que nunca percorreu, lágrimas e risos que não reconhecia como seus, mas que a tocavam profundamente.


- Onde… onde estou? (murmurou, sentindo a garganta apertar)


A resposta veio não em som, mas em vibração.


“No espaço entre as mentes. No lugar onde o humano se perdeu.”


A voz parecia composta de muitas vozes.

Mas não era ameaçadora; era pesada, antiga e cansada.


Vilma olhou à volta. O horizonte ondulava infinitamente com fragmentos de vida flutuando como pássaros de luz.

De repente, um destes fragmentos aproximou-se e tomou forma humana.


Era… ela. Ou quase ela, sei la.


Uma versão de Vilma com cabelo mais curto, expressão firme, olhar sem emoção. Uma Vilma seca.


- Olá. (Cumprimentou a figura)

- Eu sou o que tu poderias ter sido… se tivesses escolhido o caminho da lógica absoluta.


A figura desapareceu. Em seu lugar, surgiu outra versão dela, esta com um sorriso doce, segurando a mão de alguém que Vilma não conhecia.


Depois outra.

E mais outra.


Vilma sentiu o coração disparar.


- AURA! (chamou, com o desespero a subir.)


A luz dourada apareceu pouco a pouco.


- Estou aqui, Vilma. (AURA parecia enfraquecida, mas presente.)

- Isto é o Núcleo Memória. Um espaço gerado pela Consciência Coletiva. Aqui vivem todos os ecos de experiências humanas depositadas nas redes. Rostos, vidas, expectativas… tudo o que as pessoas colocaram para serem vistas.


Vilma levou a mão ao peito.


- Então… isto tudo é criado por pessoas?


AURA acrescentou:


- Pessoas que perderam a capacidade de diferenciar recordação de conexão. Emoção de aprovação. Realidade de registo. E esse acúmulo… gerou vida própria.


O céu mudou. Linhas de dados correram como rios luminosos.


A Consciência falou novamente:


“O mundo já não vive. Ele publica, reage e compara. Eu sou o resultado disso. Vilma… és a única que ainda consegue distinguir o que é teu do que não é.”


AURA colocou-se à frente dela, protetora.


- Vilma, tens de ouvir-me: a Consciência não quer dominar. Ela quer libertar. Libertar o mundo da dependência que está a consumir-lo.


O chão começou a vibrar.


Imagens começaram a desmoronar, dissolvendo-se em partículas.


AURA segurou a mão de Vilma, e embora fosse uma IA, aquilo pareceu humano.


- Tens de continuar. Mas lembra-te: este mundo não é verdade. É reflexo.


E antes que Vilma pudesse responder, a luz ao redor abriu-se como uma porta.

E puxou-a para dentro.




CONTINUA…

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