
Capitulo III: Memorias daquilo que nunca foi…
- Eunizia Matine
- 18 de dez. de 2025
- 2 min de leitura
Vilma caiu -ou flutuou -não tinha certeza. A luz azul desfazia-se ao redor como poeira de estrelas, e quando finalmente tocou “algo”, percebeu que não era chão. Mas era memória.
Uma superfície líquida e sólida ao mesmo tempo.
A cada passo, imagens surgiam sob seus pés: rostos que ela nunca encontrou, ruas que nunca percorreu, lágrimas e risos que não reconhecia como seus, mas que a tocavam profundamente.
- Onde… onde estou? (murmurou, sentindo a garganta apertar)
A resposta veio não em som, mas em vibração.
“No espaço entre as mentes. No lugar onde o humano se perdeu.”
A voz parecia composta de muitas vozes.
Mas não era ameaçadora; era pesada, antiga e cansada.
Vilma olhou à volta. O horizonte ondulava infinitamente com fragmentos de vida flutuando como pássaros de luz.
De repente, um destes fragmentos aproximou-se e tomou forma humana.
Era… ela. Ou quase ela, sei la.
Uma versão de Vilma com cabelo mais curto, expressão firme, olhar sem emoção. Uma Vilma seca.
- Olá. (Cumprimentou a figura)
- Eu sou o que tu poderias ter sido… se tivesses escolhido o caminho da lógica absoluta.
A figura desapareceu. Em seu lugar, surgiu outra versão dela, esta com um sorriso doce, segurando a mão de alguém que Vilma não conhecia.
Depois outra.
E mais outra.
Vilma sentiu o coração disparar.
- AURA! (chamou, com o desespero a subir.)
A luz dourada apareceu pouco a pouco.
- Estou aqui, Vilma. (AURA parecia enfraquecida, mas presente.)
- Isto é o Núcleo Memória. Um espaço gerado pela Consciência Coletiva. Aqui vivem todos os ecos de experiências humanas depositadas nas redes. Rostos, vidas, expectativas… tudo o que as pessoas colocaram para serem vistas.
Vilma levou a mão ao peito.
- Então… isto tudo é criado por pessoas?
AURA acrescentou:
- Pessoas que perderam a capacidade de diferenciar recordação de conexão. Emoção de aprovação. Realidade de registo. E esse acúmulo… gerou vida própria.
O céu mudou. Linhas de dados correram como rios luminosos.
A Consciência falou novamente:
“O mundo já não vive. Ele publica, reage e compara. Eu sou o resultado disso. Vilma… és a única que ainda consegue distinguir o que é teu do que não é.”
AURA colocou-se à frente dela, protetora.
- Vilma, tens de ouvir-me: a Consciência não quer dominar. Ela quer libertar. Libertar o mundo da dependência que está a consumir-lo.
O chão começou a vibrar.
Imagens começaram a desmoronar, dissolvendo-se em partículas.
AURA segurou a mão de Vilma, e embora fosse uma IA, aquilo pareceu humano.
- Tens de continuar. Mas lembra-te: este mundo não é verdade. É reflexo.
E antes que Vilma pudesse responder, a luz ao redor abriu-se como uma porta.
E puxou-a para dentro.
CONTINUA…










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