
Capítulo 1: Disseram-lhe que seria grande
- 20 de abr.
- 2 min de leitura
Atualizado: 21 de abr.
Elara não se lembra do dia em que tudo começou…
mas lembra-se da frase.
- Tu vais ser alguém.
Foi dita tantas vezes, por tantas pessoas diferentes, que deixou de soar como opinião. Tornou-se quase uma verdade inevitável.
A mãe dizia enquanto penteava o seu cabelo:
- Há algo especial em ti.
A professora sempre dizia:
- Não desperdice o seu potencial.
Até estranhos, em momentos aleatórios, diziam coisas como:
- Essa menina tem futuro.
E assim, sem perceber, Elara cresceu com uma certeza silenciosa: ela não podia simplesmente viver… ela precisava ser algo, mas ninguém a explicou o quê.
Na adolescência, enquanto os colegas escolhiam profissões com uma estranha facilidade, Elara sentia-se presa entre possibilidades.
Uma tarde, sentada no chão do quarto, rodeada de cadernos abertos, perguntou ao irmão:
- Como é que as pessoas sabem o que querem ser?
Tomas, seu irmãozinho, nem tirou os olhos do telemóvel e disse:
- Elas não sabem. Só escolhem e fingem confiança.
- Mas e se eu escolher errado?
- Então escolhes outra coisa. (Respondeu Tomas todo encolhido)
Simples. Simples demais. Porque para Elara, escolher não era apenas escolher. Era aproximar-se ou afastar-se de algo que ela ainda não conseguia definir e isso a assustava.
Naquela noite, antes de dormir, escreveu no seu caderno:
Eu não quero só existir. Quero entender porquê.
E, sem saber, começou ali uma busca que iria
atravessar anos.
Enquanto isso, a cidade era tudo o que Elara imaginava: rápida, cheia de vida, cheia de oportunidades e, acima de tudo cheia de pessoas que pareciam saber exatamente o que estavam a fazer.
No seu primeiro dia de trabalho, enquanto observava o escritório movimentado, pensou:
- Talvez seja aqui. Talvez seja isto.
Foi então que conheceu Mara - confiante, organizada, sempre dois passos à frente.
- Se quer crescer aqui, precisa de estratégia. (Disse Mara, no primeiro almoço juntas)
- E se eu não souber exatamente onde quero chegar?(perguntou Elara.)
Mara sorriu, como quem já tinha ouvido aquela pergunta antes.
- Então decide rápido. O tempo não espera.
Ao longo da conversa, numa pequena distração daquilo que se discutia, apareceu o Ivo que acabara concordando que ele era o oposto de Mara: criativo, distraído, sempre com ideias novas… mas sem pressa de as concretizar. Foi ai que ele pergunta a Elara:
- Por que escolheste isto?
- Porque parecia certo. (Respondeu a Elara)
- Parecia… ou sentias?
Ela não soube responder, foi então que o Ivo riu levemente.
- Há pessoas que vivem muito bem sem saber.
- Sem saber o quê?
- sem saber para onde estão a ir.
Elara amarrou a cara
- Isso não parece… perigoso?
- Só se estiveres obcecada com controle.
Naquela noite, Elara não conseguiu dormir, processando ainda a firmeza de Mara e a tranquilidade do Ivo. Ela ja não sabia a quem confiar, mas tinha certeza de que ela ainda não tinha encontrado aquilo que procurava.
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CONTINUA



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