
Capítulo II: A obsessão pelo propósito
- 21 de abr.
- 2 min de leitura
Com o passar do tempo, a busca de Elara deixou de ser curiosidade e tornou-se urgente.
Ela começou a tratar a vida como um exame: cada decisão precisava ter um significado e cada escolha precisava aproximá-la de algo maior.
Trabalhou muito e tentou se destacar o que, por muito tempo, funcionou.
Foi promovida e reconhecida. O que ela tanto almejava. Nas nao estava satisfeita. Nos seus momentos de silêncio, havia sempre uma pergunta que voltava:
Será isto que eu queria?
Num dia muito corrido, saindo tarde do escritório, encontrou o Ivo no elevador e foram conversando:
- Ainda aqui? (perguntou ele)
- Preciso de fazer isto dar certo.
- E se já estiver a dar?
- Não sinto isso. (Respondeu Elara com tristeza)
Ivo ficou em silêncio por um momento, ainda a processar o massacre que a Elara se submetia.
- Talvez o problema não seja o caminho, mas a expectativa.
- Como assim?
- Tu estás à procura de um momento em que tudo faz sentido. Mas e se esse momento não existir?
Elara não respondeu pois pela primeira vez, essa possibilidade tinha cara de ser real. Escolheu despediu-se do amigo e foi a casa com aquela questão fazendo casa na sua mente.
Os anos passaram. Elara mudou de trabalho, de casa, de versão de si mesma várias vezes: tentou ajudar pessoas, tentou viver com mais leveza, tentou deixar de tentar tanto.
Mas a pergunta que o Ivo a fez nunca desapareceu completamente.
Num jantar, como de costume eles faziam a cada última sexta-feira do mês, a Mara anunciou:
- Vou mudar de país. Ganhei uma nova oportunidade.
- Que maravilha! (disse a Elara, com um sorriso puro).
Depois, Mara perguntou:
- E tu, Elara? Qual é o próximo passo?”
Elara ficou em silêncio por alguns segundos e respondeu:
- Ainda estou a descobrir.
Mara engoliu a sua ansiedade ao perceber algo no olhar da Elara: Algo entre compreensão e dúvida.
Ao fim do jantar, caminhando sozinha pela cidade, Elara percebeu algo desconfortável:
Ela tinha vivido tanto tempo à procura de uma resposta que quase não tinha percebido o quanto já tinha vivido:
As pessoas que conheceu, as experiências que teve, os momentos que, sem perceber, a tinham moldado. Nada disso tinha sido “o propósito. Mas também, nada disso tinha sido vazio.
.
.
.
CONTINUA…



Comentários